Educação em pauta

Imagem: Com tanta informação disponível, diferencial é saber o que é importante.

por Tiago Pissolati

Professor do Colégio Santo Agostinho

09/08/2018

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Com tanta informação disponível, diferencial é saber o que é importante.

Conta-se que, certa vez, um jovem de nome Gottfried Wilhelm Leibniz nutriu o desejo de escrever um livro que contivesse todas as coisas do mundo. A ideia, àquela altura do século XVII, aparentava ser o mais impossível delírio. Como fazer caber, afinal, cada traço singular do universo na dobra de um livro? Tentando dar corpo ao seu sonho, Leibniz estudou diversas línguas, pensou nas combinações possíveis de diferentes alfabetos, investigou a fundo os ideogramas chineses. Por fim, chegou à conclusão de que A Enciclopédia Universal só seria possível se fosse uma espécie de máquina capaz de operar em linguagem binária e de acessar as informações de um imenso banco de dados. Não havia, naquele tempo, redes de distribuição de energia elétrica. Assim, como não tinha recursos para inventar o primeiro computador, Leibniz teve que se contentar em dar forma à análise combinatória e ao cálculo diferencial.

Talvez o matemático, cientista e filósofo alemão tenha imaginado que, séculos mais tarde, seria finalmente possível fabricar um livro infinito. Talvez tenha até mesmo sonhado que, um dia, aquele livro pudesse caber na palma da mão. Especulações à parte, é fato que a esta altura do século XXI, cerca de 5 bilhões de pessoas carregam um livro desses no bolso – e carinhosamente os chamam de smartphones. Isso significa que, aproximadamente, 75% da população mundial vive na companhia de um aparelho que pode, em questão de segundos, acessar qualquer informação. Mas não significa, necessariamente, que esses três quartos da população mundial possam ser considerados satisfatoriamente informados.

Afinal, quando todo o conhecimento do mundo está ao alcance dos dedos, o que nos diferencia uns dos outros não é apenas o quanto conhecemos, mas também como acessamos o conhecimento e aprendemos a conhecer.


Com tanta informação disponível diferencial é saber o que é importante
Mais preparado estará aquele que, com o livro infinito sonhado por Leibniz, puder realizar a mais desafiadora tarefa: o gesto de leitura.


Em tempos como estes, não há muito sentido em memorizar os nomes das espécies que se extinguiram após o fim do período Jurássico; não existem grandes razões para saber os nomes de todos os presidentes do Brasil; não há necessidade de decorar cada estrato da técnica da pirâmide invertida do jornalismo. Mais vale, ao contrário, saber encontrar uma fonte cientificamente confiável sobre dinossauros a partir de uma pesquisa na web; ser capaz de encontrar a lista de nomes que ocuparam o Palácio do Planalto e analisá-la como processo histórico; por fim, saber reconhecer a diferença entre um texto jornalístico autêntico e uma notícia falsa.

Em suma: se a informação é disponibilizada, disseminada e dispersada no caótico universo da Internet, conhecer agora implica, fundamentalmente, encontrar, selecionar, interpretar, analisar, relacionar e, finalmente, assimilar.

É por essa razão que as transformações tecnológicas vêm mudando a nossa forma de conhecer o mundo à nossa volta. É também por essa razão que as novas possibilidades de saber vêm colocando grandes desafios para o campo da educação e para cada educador. Imersos numa revolução informacional cujos desdobramentos ainda estamos por conhecer, sabemos que, diante do livro de todas as coisas que, dia após dia, carregamos no bolso, mais preparado estará aquele que for capaz de levar a cabo as complexas – e por vezes frustrantes – tarefas de investigação, reflexão e análise. Mais preparado estará aquele que, além de encontrar as agulhas no palheiro, conseguir pensá-las, mensurá-las e relacioná-las umas às outras. Ou ainda, mais preparado estará aquele que, com o livro infinito sonhado por Leibniz aberto sobre a palma da mão, puder realizar a mais desafiadora tarefa: o gesto de leitura.